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Borderline
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07042018

Mãe ,

não sei se meu pai chegou a comentar, mas o meu psiquiatra confirmou o que todos nós menos a senhora já sabíamos. Eu fui “adaptado” a ser como vós, ou seja, provavelmente nunca daremos certo sem tratamento psiquiátrico/psicológico de ambas as partes.

Eu queria muito te agradecer por ter me abandonado há muito tempo, estar ao meu lado em carne e osso não significa que não me abandonou.
Não é saudável pra mim, talvez nem pra ti, chorar lamentações diversas vezes por eu não ser como Joãozinho, fulaninho exemplar, afinal, todos são exímios se comparado a mim na sua visão, não são?
Contribuiu para a minha doença: todas as vezes que teve oportunidade colocas-te vosso filho para baixo, dizer que a minha única solução era largar o que ainda me mantinha São, era outra tolice.
Levei a minha primeira namorada em casa aos dezesseis anos e antes disto, você fazia questão de me oprimir. Seja com “ninguém te quer feio desse jeito” ou “será que isso de ser gay é de família ?”
Você é abusiva quando enxerga na minha vida uma extensão da sua e projeta em mim tudo aquilo que queria ter sido e não foi e tudo aquilo que queria ter feito e não fez. E se frustra toda vez que eu tomo um caminho diferente do que você queria tomar.

Quando confunde dominação com instrução e não aceita apenas me dar orientações, mas precisa viver por mim e controlar cada detalhe da minha vida e cada escolha que eu preciso tomar. Que amigos ter. Por quem me apaixonar(ingrid ou mile?) O que estudar nos meus tempos livres. Como devo me distrair. Que preferência religiosa ter.

Você é abusiva quando faz com que eu me frustre por não conseguir corresponder às suas expectativas. E que eu lamente por ser a pessoa que eu sou, que eu me repreenda e tente me transformar em alguém que eu não queria ser. Que eu me odeie por isso. Ache-me errado e questione todos
os dias: por que eu não posso simplesmente ser mais como o fulaninho? Por que eu sou esse monstro que causa tanto sofrimento na minha mãe?
Você é abusiva quando se utiliza de discursos maternais sobre como me ama e “só quer o meu melhor” para abusar do seu poder de mãe.
Dizer que eu estou horroroso e vou passar vergonha saindo de casa daquele jeito, porque “é melhor ouvir da sua mãe do que de um desconhecido”. Ou quando me faz sentir culpa por existir. Porque “eu não sirvo pra nada mesmo”. Ou só existo pra te dar trabalho. Fui um erro que você não compreende.

E, ah, as chantagens emocionais! Não podemos nos esquecer dos jogos psicológicos e das tentativas múltiplas de manipulação. Das lágrimas, dos choros e das ameaças.
“você não me ama”; “você só causa desgosto”; “você ainda vai me matar um dia”; “onde foi que eu falhei como mãe?”; “espero que um dia Deus me perdoe pelo filho que eu criei”; “você não tem respeito por pai e mãe”; “é muito egoísmo da sua parte”; “porque você é tão ingrato?”; “não faz nada pela sua mãe”; “você não tem medo de ir pro inferno?”;“eu estou à ~isso aqui~ de não te considerar mais minha filha”; “lembre-se que você é sustentada por mim”; “enquanto viver nessa casa…”; “você não valoriza nada que eu faço por você”; “eu sacrifiquei minha vida toda por você e é assim que você me retribui?” “o que o resto da família vai fazer quando souber o tipo de pessoa que você realmente é?”; “não consigo olhar na cara das pessoas de tanta vergonha por ter um filho como você”; “se eu morrer saiba que foi você quem me matou”.

Tudo isso pra conseguir o controle de volta e me fazer tomar a decisão que você gostaria que eu tomasse. Não pense nem por um segundo que eu estou tendo que ouvir essas coisas porque cometi algum crime terrível. Eu não estou bebendo, me drogando, me prostituindo ou reprovando de ano: coisas que jamais poderiam ser possibilidades reais dentro desse nosso lindo universo familiar tradicional brasileiro.

É apenas porque eu pedi pra lavar o banheiro cinco minutos depois; porque eu me cortava para dissolver essa dor. Porque eu fiz tatuagem. Porque eu virei ateu, satanista ou qualquer outra religião diferente da sua. Porque eu pensava alto. É porque eu queria depilar as axilas mas voce não aprova, não é?
Não é amor. Não é preocupação. Não é educação. Não é saudável. Não é o seu melhor. Não é pro meu próprio bem.
É abuso.
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